quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Antonila da França Cardoso



  O  Saudoso Apito De um Trem



      Casualmente vimos, nesta semana, a passagem  de um dos velhos trens da leste. Confessamos nem lembrar se eles ainda existiam. A máquina desgastada, resfolegante, puxava um grande número de vagões que sacolejavam nos trilhos. Paramos para olhá-lo, evocando um tempo de criança em que era comum dar adeus aos que acenavam das janelas. Mas, para nosso espanto, não havia pessoas nas janelas. Aliás, tivemos a impressão de que as classes estavam vazias. E reparando bem, já não eram tantas como antes. Na maioria, vagões de carga. Apenas um de passageiros. Sem querer, reportamo-nos aos dias áureos da Rede Ferroviária leste Brasileiro em nossa região.
     Juazeiro, terminal da linha férrea para Salvador, desfrutava uma situação privilegiada. O antigo prédio de nossa estação, um primor de arquitetura, majestoso, de frente para o rio, impunha-se aos que visitavam nossa cidade. Grande e arejado, oferecia relativo conforto a quem aguardava a chegada ou saída dos trens. A maior parte das pessoas, no entanto, preferia esperar, andando pela plataforma por que temos uma felicidade enorme de transformar qualquer local amplo em passeio público.
     Domingo às 11 horas, era chique passear na estação da leste, minutos antes da saída do trem. Moços, velhos, crianças, todos os que iam viajar, numa só agitação, queriam ocupar os seus lugares. E bem os passageiros não sentavam, já começavam os pedidos de favor: uma carta para o noivo, um tecido "igualzinho a este da amostra" , óculos para trocar as lentes, uma pulsera ou um colar da moda, de tudo um pouco. Mães cuidadosas levavam cestas ou caixas com doces, biscoitos e frutas para seus filhos que estudavam na Bahia. (Inexplicavelmente naquela época, nenhum interiorano se referia à capital como Salvador!) É verdade que nem sempre tais incumbências eram levadas a sério, e muitas são as anedotas que a esse respeito os estudantes daquela época podem contar, mas ao final tudo terminava entre risos.
    O apito do chefe da estação apressava as últimas recomendações, lembranças, despedidas. Com um silvo sentido, o maquinista fazia mover a locomotiva. Primeiro indecisa, relutante, como se não quisesse ir; depois decidida e impetuosa, afinal. Atrás dela, como enorme serpente ondulante, o corpo de vagões de carga, correio, funcionários, restaurante, segunda e primeira classes, beliches, camarotes. Preços para atender a todos os gostos e possibilidades. Desaparecendo na curva, ainda se podia ver, à distância, um sem número de lenços e mãos agitando adeuses nas janelas. A fumaça da locomotiva deixava no céu um rastro de saudade . E a multidão se dispersava satisfeita, com ares  de quem cumprira agradável dever.
     À tarde repetia-se inversamente o mesmo espetáculo. O apito soava em Piranga e era o tempo necessário de as pessoas saírem apressadas para a estação. A maior parte dos presentes não esperava pessoa alguma, em particular. Ia assistir à chegada do trem, receber o jornal da véspera, informar aos passageiros as últimas novidades, tomar conhecimento dos novos visitantes e das notícias. Por muitos anos, aos domingos e quintas-feiras, esse foi um programa quase obrigatório na vida do juazeirense.
    Certa feita, como uma bomba, explodiu uma notícia espantosa: "A leste ganhou um trem expresso. Ele faz o percurso Juazeiro - Salvador no mesmo dia!" Muita gente não acreditou possível esta façanha. A chegada do primeiro expresso constituiu fato histórico, com quase toda a população urbana esperando na estação para ver e crer. E a máquina que era capaz de vencer tão grande distância em um único dia foi assunto para muitas semanas. Por ser colorida e charmosa mereceu logo o apelido de "Marta Rocha".
    Superadas as maçantes baldeações e as dormidas em Senhor do Bonfim, afastada e perspectiva das viagens noturnas, temerosas para tantas pessoas, os trens receberam novos usuários, confiantes, entusiastas.
   Tudo ia muito bem até o dia em que o progresso fez surgir uma rodovia asfaltada entre nossa cidade e a capital baiana. Tornou-se factível realizar a enfadonha viagem em apenas sete horas, de ônibus ou em cinco, de automóvel. Isso determinou o declínio da Leste em nossa região.
    Hoje, pouco utilizada, meio esquecida dos juazeirenses, a velha Rede Ferroviária Leste Brasileiro para nós só existe na evocação do saudoso apito de um trem.

                                                                                                    Juazeiro, 1974


Livro: Umas e Outras Crônicas

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